Indústria mais próxima do campo

Indústria mais próxima do campo
Estância Santa Branca, em Bagé, integra o projeto Alienza del Pastizal

*Reportagem integrante do caderno especial Mapa Econômico do RS, publicado pelo Jornal do Comércio

Há no Estado uma aproximação, talvez inédita, entre produtores e a indústria da carne. Faz parte da aproximação, talvez inédita, entre produtores e a indústria da carne. De olho no acordo entre o Mercosul e a União Europeia, um movimento conjunto coordenado pelo Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados do Rio Grande do Sul (Sicadergs) criou o Fundo da Carne Gaúcha (Fundocarne), dedicado justamente a investir em campanhas que vendem ao mundo a imagem diferenciada da produção de carne do Pampa.

"Há uma estagnação de muitos anos nas lavouras de grãos no Rio Grande do Sul, e isso nos permitiu uma reversão de protagonismo nas propriedades em relação à produção de gado de corte. No caso da exportação, o Brasil se consolidou como o maior exportador de carne bovina do mundo. Com essa valorização da produção, abre-se o espaço para mostrarmos cada vez mais o quanto a nossa carne gaúcha é diferenciada em relação ao restante do Brasil. Seja pelo manejo ou pelas alças que são criadas aqui. Os vizinhos da Argentina e Uruguai já fizeram um trabalho de marketing muito bom, agora é o nosso momento", comenta o presidente executivo do Sicadergs, Ronei Lauxen.

Segundo o executivo, o desafio hoje está em conseguir avançar no volume de produção e na produtividade sem perder as características próprias do Pampa. Depois de uma década com volumes de abates estáveis, em 2025, houve aumento de 5,5% no volume em relação ao ano anterior. Dados dos primeiros três meses do ano mostram que 473,4 mil bovinos foram abatidos no Estado, representando 1,84% a mais do que no mesmo período do ano passado. Aumento mais significativo, conforme o dirigente, ainda não deve ser sentido em 2026, mas a tendência é de alta nos próximos anos, em virtude do movimento de aumento dos rebanhos neste momento.

De modo geral, as exportações de carne bovina aumentaram 39% no primeiro trimestre, mas o movimento para ganhar os consumidores não se limita ao mercado externo. Há também campanha para mostrar ao brasileiro a qualidade dessa carne nobre.

"Já houve muita evolução em melhoramento genético e manejo, mas agora temos trabalhado em conjunto com os produtores para mostrar que temos condições de melhorar muito mais e, com isso, ganhar mercados. Tem aumentado, por exemplo, mas ainda de maneira incipiente, o volume de contratos de parcerias entre indústria e produtor, criando cadeias integradas. Sempre reforçando o quanto somos sustentáveis na pecuária gaúcha. Há um projeto nacional de garantir a rastreabilidade total dos rebanhos até 2033, pois aqui, estamos trabalhando para antecipar esse processo", diz.

A carne do Pampa gaúcho em alta: produção aliada à conservação do bioma ganha reconhecimento

Nos 1,6 mil hectares da Estância Santa Branca, em Bagé, foram 127 espécies de aves mapeadas – o maior volume entre 16 propriedades visitadas no Pampa Gaúcho – no levantamento mais recente realizado pela Alianza del Pastizal. É um movimento que une produtores de gado no Pampa dedicados à valorização da carne gaúcha produzida com conservação do bioma e sustentabilidade plena, e que pesa decisivamente na abertura de novos mercados a um dos produtos mais nobres da economia entre a Campanha, Fronteira Oeste, Sul e Centro-Sul.

Com as dificuldades climáticas na produção de grãos, finalmente, depois de 20 anos do reconhecimento da identificação geográfica da produção de carne bovina do Pampa Gaúcho, o produto resultante de pelo menos 1,2 milhão de hectares, entre 11 municípios cadastrados pela Associação dos Produtores de Carne do Pampa Gaúcho da Campanha Meridional (Apropampa) assume papel o protagonismo na geração de valores para a economia local. Desde o produtor até os frigoríficos.

Entre os oito municípios da Macrorregião Sul do Mapa Econômico do RS presentes entre os 50 principais municípios exportadores gaúchos no primeiro trimestre de 2026, cinco têm a carne bovina ou mesmo os bois vivos como principal produto exportado. Em Alegrete, por exemplo, onde opera o gigante Minerva Foods, com capacidade de abate de até 800 animais por dia, a alta nas exportações de carne bovina nos três primeiros meses do ano em relação ao mesmo período de 2025 chega a 894,8%. Em Bagé, onde há outra unidade do grupo internacional de frigoríficos, abatendo até 680 bovinos diariamente, a variação chegou a 314,7% no período.

"Os mercados mais exigentes, como o europeu, por exemplo, buscam por rastreabilidade e produção sustentável. Quando se fala em Brasil, logo pensam na preocupação com a produção de gado livre de desmatamento na Amazônia. Pois aqui, no bioma Pampa, temos uma produção em campo nativo, sem derrubar uma árvore e ainda criando o ambiente propício para o reequilíbrio ambiental, como vemos no levantamento de aves nas propriedades. Garantimos aqui um sistema integrado e sustentável com o bioma, e é impossível falarmos do resultado, da qualidade da carne gaúcha, sem falarmos da importância desse bioma. Finalmente o mercado está abrindo os olhos para os nossos diferenciais, mas ainda precisamos vender melhor essa nossa imagem diferenciada", avalia o proprietário da Estância Santa Branca, Eduardo Botelho.

Ele faz parte da sexta geração da família produtora de gado em Bagé, onde se concentra o oitavo maior rebanho gaúcho, com 237,4 mil bovinos em 2024. Ali ele faz o desenvolvimento genético do gado e garante todas as etapas do desenvolvimento do animal até o abate. Da cria ao desmame, à recria e à terminação. Na propriedade que é dedicada exclusivamente à produção de animais, garantir a cadeia completa foi a forma de ter segurança em um mercado sempre tão variável.

"A margem para o produtor nunca foi muito grande, mas o momento que vivemos é de alta. Existe uma demanda em alta no mundo todo, na China, por exemplo, quase dobrou o consumo de carne bovina. Tendo todas as etapas do desenvolvimento do gado, conseguimos negociar com o mercado, seja para outros terminadores, criadores ou para o abate", explica Botelho.

Os diferenciais do que sai dessa produção, segundo Eduardo Botelho, estão especialmente no manejo próprio do Pampa. São desenvolvidas as raças Hereford e Red Angus, as chamadas britânicas, que se adaptam melhor ao ambiente da região. A base forrageira é garantida pelo campo nativo e pastagens de suporte. O equilíbrio é garantido com a rotação dos campos. Ou seja, o gado nesta propriedade sempre come a folha do pasto nativo, sem depender de insumos.

Um modo de produzir que agora é reconhecido em valor agregado na última etapa da cadeia produtiva, ganha mercados e valorização do selo de carne nobre para a produção no Pampa Gaúcho. Frigoríficos como o Campeiro, em Rosário do Sul, utilizam o selo da Alianza del Pastizal; o Silva, exportador em Santa Maria, e o Coqueiro, em São Lourenço do Sul, valorizam o IG do Bioma Pampa Gaúcho. E a Minerva agora inclui na sua linha "Las Lilas", que já havia implantado no Uruguai e Argentina, as carnes nobres do Rio Grande do Sul.



produtor, pecuarista, indústria