Abiec reúne setor para discutir aftosa na China e fluxo de exportação
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes reúne nesta terça-feira (7) representantes das indústrias do País em meio a um novo fator de atenção no principal mercado da carne bovina brasileira: a confirmação de focos de febre aftosa na China. O encontro terá como pano de fundo a evolução da cota de exportação em 2026, mas deve dedicar atenção especial ao episódio sanitário e seus possíveis desdobramentos.
Segundo o coordenador de Inteligência de Mercado da Safras & Mercado, Fernando Iglesias, o cenário ainda exige cautela e, por ora, não altera o quadro de mercado. Ele afirma que o ponto central é a evolução do surto. Caso permaneça localizado, não deve haver impacto relevante sobre a demanda chinesa. “Do jeito que está, não muda nada para o mercado brasileiro”, afirmou. Por outro lado, uma eventual perda mais significativa de rebanho poderia levar o país asiático a rever suas políticas de importação.
Iglesias também chama atenção para o fato de que o risco sanitário, neste momento, é secundário frente à dinâmica comercial. Na avaliação dele, o mercado segue mais condicionado ao avanço da cota do que ao episódio de aftosa, embora reconheça que uma eventual disseminação da doença poderia alterar esse cenário.
No fim de março, o governo chinês confirmou dois focos da doença, nas províncias de Xinjiang e Gansu, no noroeste do país. Ao todo, 6.229 bovinos estavam nos dois locais afetados, dos quais 219 apresentaram sintomas. As autoridades locais adotaram imediatamente protocolos sanitários, incluindo abate de todos os animais, desinfecção, rastreamento e restrição de movimentação.
Embora o caso tenha sido rapidamente atacado pelas autoridades sanitárias, o principal fator de atenção é a identificação do sorotipo SAT-1, não coberto pelas vacinas utilizadas nos rebanhos do país. Essa característica eleva o nível de alerta sanitário, já que o rebanho não possui proteção contra esse sorotipo — o que, na prática, o torna “virgem” do ponto de vista imunológico e mais suscetível à disseminação do vírus —, embora, até o momento, o episódio permaneça localizado e sob controle, segundo informações de mercado.
A avaliação predominante é de que o impacto imediato sobre a produção chinesa é limitado. Ainda assim, o desdobramento do caso passa a ser acompanhado de perto por analistas e pela indústria, especialmente diante da incerteza sobre a capacidade de contenção do vírus e o risco de eventual disseminação.
Principal comprador da carne bovina brasileira, a China adotou recentemente uma salvaguarda após investigação solicitada por sua cadeia produtiva doméstica, estabelecendo limites para a importação do produto. Para o Brasil, foi fixada uma cota de cerca de 1,1 milhão de toneladas em 2026, volume inferior ao embarcado no ano anterior.
Dados da Secretaria de Comércio Exterior, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, indicam que, entre janeiro e fevereiro, o Brasil exportou aproximadamente 370 mil toneladas de carne bovina para o mercado chinês, o equivalente a cerca de 34% da cota anual. O ritmo reforça a expectativa de esgotamento antecipado do limite.
Considerando todos os fornecedores, a China estabeleceu uma cota global de 2,6 milhões de toneladas em 2026. Até fevereiro, 627,8 mil toneladas já haviam sido importadas, o que corresponde a cerca de 23,3% do total, segundo dados do Ministério do Comércio da República Popular da China (Mofcom). O desempenho indica que o Brasil avança em ritmo mais acelerado que a média geral.
Na avaliação de Iglesias, o ritmo dos embarques deve levar a um esgotamento precoce da cota. O analista aponta que o limite pode ser atingido entre maio e o início de julho, o que abriria um período de menor fluxo de exportações ao longo do restante do ano. Esse cenário tende a pressionar o mercado doméstico, com maior disponibilidade de produto e possível queda de preços na cadeia pecuária.
Nesse contexto, cresce entre agentes do setor a expectativa de que a discussão sobre flexibilização das salvaguardas ganhe espaço ao longo do ano, especialmente se houver pressão adicional sobre a oferta interna chinesa. Ainda assim, a avaliação predominante é de que qualquer movimento nessa direção dependerá de evidências mais concretas de impacto produtivo no país asiático.
Na prática, explica Iglesias, abre-se uma janela de aproximadamente três meses para que o setor comece a discutir os volumes de 2027 e busque alternativas para mitigar os efeitos de uma possível interrupção temporária nos embarques. Esse intervalo também será decisivo para avaliar se o episódio sanitário na China evoluirá a ponto de alterar o quadro de oferta e demanda global. Conclui o analista da Safras & Mercado.
Por ora, o foco de febre aftosa é tratado como um ponto de atenção, sem efeito direto sobre o comércio. Mas, combinado ao avanço acelerado da cota, reforça um cenário de incerteza e mantém o setor exportador em alerta.